O que dizer de ti,
senhora, se de todas as artes mestras, és a mais bela
e mais completa.
São as outras como pupilas, enquanto você, indivisível,
soberana e universal.
Um olhar fala, mas fala como períodos curtos, em que
a elipse houvera suprimido boa parte dos elementos essenciais;
enquanto você, senhora, comunga os prazeres do mundo em
verso e prosa.
Uma escultura fala, mas fala como uma interjeição,
que apenas expressa um sentimento vago, indefinido, momentâneo;
enquanto você, senhora, detém o segredo do passado,
do presente e quiçá, também do futuro.
Uma pintura também fala, mas fala através da tela
e não transmite a real alegria ou dor da alma que segura
o pincel; enquanto você, senhora, num único sussurro
desvenda as cores do mundo.
Um edifício fala, mas fala como uma imponência
inerte e abreviada, que desperta a memória do passado
sem particularizar os acontecimentos a que alude; enquanto você
senhora, traz nos andares mais secretos da alma, os sonhos,
as bandeiras e as esperanças de quem a detém.
Uma música também fala, mas fala apenas à
sensibilidade, sem que o entendimento possa claramente desvendar
seu momento de criação.
Só você, senhora, fala ao mesmo tempo à
fantasia e à razão, e tem o dom de traçar
destinos, dispor vidas, transpor mundos, e arremessar aos ares
os monumentos mais nobres.
Só você preenche o vazio de tudo o que ainda não
foi dito ou sentido, delineia e arredonda os espaços
mais íntimos do universo.
Só você, senhora, traz na majestade a simplicidade,
na soberania a cumplicidade, e na universalidade a individualidade
do ser e da própria essência da vida.
De todas as artes, a mais nobre, a mais rica, a mais expressiva,
é você, Palavra.
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