Já
é tarde e o dia se faz noite
Caminho placidamente entre o ruído e a pressa, entre o
que sou e o que apenas ficou. Refaço percursos, busco a
paz no caminho, já perdida.
De súbito descubro que estou só, e que a sombra
de minh’alma já não pertence ao meu corpo
cansado. A aridez e o desencanto no rosto refletem o longo percurso.
Abstenho-me de pudores, rancores, amores, e sem renunciar a mim
mesma, cedo agora ao cortejo dos anos.
Dentro do meu coração, um pouco de ti bate suavemente
em compassos alterados. E muito do vazio de tudo o que ainda não
fiz preenche todo o resto.
Há uma imensa fome de verdade a gritar sem ruído,
a sufocar-me a garganta machucada pela insensatez da juventude
de outrora. Preciso pedir ajuda e perguntar o caminho, mas não
tenho voz.
As mãos, vazias, tristemente caídas ao longo do
corpo, mostram-se frias, pálidas, sujas de dores e vidas
alheias.
Busco o verdadeiro poema da vida que não vi passar, versos
esquecidos numa esquina qualquer, enquanto eu estava em alta velocidade.
Lanço uma súplica aos pés do Desespero, e
não obtenho resposta. Mostra-se ocupado demais como sempre
fui. Apelo à Esperança, que me sorri calma e de
mãos atadas.
O tempo que me resta, não me deixa as escolhas de antes.
Agride-me, empurra-me impiedosamente para o abismo do fim.
Fecho os olhos. De súbito agora sei que já é
tarde e que até a escuridão da noite que me invade,
encontrará, em breve, em outro ser, o raiar de um novo
dia.
Mesmo assim não posso parar. Percebo que não é
preciso ir longe para se chegar longe.
Preciso sentir essa dor até que doa tudo e não doa
mais, até que meu peito não mais consiga lutar contra
o inevitável, até que eu esteja pronta para o grande
recomeço. |
Autora:
Pillar Rios
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